Descendente de índio por parte do pai e de italiano por parte da mãe, o cantor, compositor e músico Jorge Camargo começou na adolescência a compor músicas evangélicas. Já aos 18 anos ingressou na Faculdade de Teologia. De lá foi estudar na Inglaterra, após ganhar uma bolsa de estudos e depois para os Estados Unidos. Ganhou prêmios no meio secular, mas foi no meio evangélico que deixou sua maior contribuição. Foram mais de 20 anos compondo e cantando belas canções que vieram a compor o repertório musical de igrejas em todo o Brasil.
A discografia do Jorge é extensa. Participou dos VENCEDORES POR CRISTO, série Louvor III (1980) a Louvor VIII (1994), além dos discos Cânticos I (1990) e Canções de Amor (1997). Fez parte do grupo SEMENTE, que gravou 3 discos, como também fez parte dos 4 discos produzidos pela Igreja Batista do Morumbi, Missões e Adoração I a III e Vento Livre 1985. Também participou de 3 discos produzidos pelo Guilherme Kerr e outros mais. Na carreira-solo gravou os seguintes discos: Salmos (1988), Feito o Amanhecer (1991), Presença (1996), Intimidade (1999) e a coletânea 20 anos de estrada (2000).
Atendendo um convite do Arquivo Gospel, o Jorge Camargo concedeu gentilmente essa entrevista, por e-mail, em 18/05/2005.
ARQUIVO GOSPEL: Fale um pouco sobre a sua tese de mestrado De Vento em Popa – Fé cristã e Música Popular Brasileira.
JORGE CAMARGO: O trabalho descreveu uma experiência concreta de tentativa de diálogo entre fé cristã e cultura brasileira no período compreendido entre o início dos anos 70 e meados dos anos 80, experiência esta nascida no seio de algumas comunidades ligadas ao protestantismo histórico e que se deu através da arte. Os Vencedores por Cristo (VPC, organização religiosa fundada em 1968 na cidade de São Paulo), desempenharam um papel relevante nesta experiência de tentativa de diálogo. Produzido em 1977, o LP De Vento em Popa objeto deste estudo, teve como uma de suas características, distinta das produções anteriores do grupo, o fato de trazer somente canções compostas por brasileiros e que, em sua maioria, possuem, tanto em termos estéticos quanto literários, influências da música popular brasileira mais difundida na época. Este trabalho teve ainda a intenção de abrir caminhos para reflexões acerca dos desdobramentos das experiências geradas pelo álbum De Vento em Popa.
Como foi o exame de avaliação dessa tese?
Bem tranqüilo. Era um assunto que eu conhecia de longa data, de modo que tudo correu sem maiores tensões.
De 1977 para trás existiam discos gravados pelos Jovens da Verdade, Novo Alvorecer, Comunidade S-8 e Wolô que tocavam música brasileira. Por que o disco De vento em popa (1977) é considerado um marco? Em que sentido é considerado?
Eu o considero um marco porque Vencedores àquela altura era o grupo musical de maior penetração no meio cristão devido às equipes que viajavam por todo o país divulgando o trabalho musical da organização. Os outros trabalhos mencionados na pergunta não são menos importantes. Trata-se de uma questão de exposição pública, que, no caso de Vencedores, era bem maior.
Você fala algo nessa tese sobre os compositores e músicos que participaram do De vento em Popa?
Faço um resgate das influências musicais de todos os compositores do disco: Sérgio Pimenta, Aristeu Pires Jr., Guilherme Kerr, entre outros.
É possível conseguir ter acesso à sua tese? Como? Pretende transformá-la em livro?
No momento ela se encontra disponibilizada na biblioteca da Universidade Mackenzie. Estou em contato com algumas editoras a fim de conseguir publicá-la.
O grupo SEMENTE foi uma tentativa de continuidade do trabalho do De vento em popa?
Em um certo sentido sim. A idéia do grupo era produzir música composta por brasileiros, valorizando os ritmos nacionais.
Você me disse que está “tocando muito mpb e pop numa cadeia de hotéis em São Paulo”. Poderia contar mais detalhes?
Tem sido uma oportunidade de ampliar meu repertório pessoal de música brasileira e internacional. Sempre apreciei a mpb e também os clássicos da música pop e tocava por hobby. Hoje tenho que atualizar meu repertório constantemente, o que me motiva a pesquisar e estudar sempre.
Você tem uma farta discografia. Não daria para tirar o sustento só da música evangélica?
Não com a discografia. A exemplo dos artistas seculares, os direitos autorais no Brasil são arrecadados de maneira desorganizada (quando são), de modo que são poucos os artistas que podem viver com dignidade somente desses direitos. A solução são as apresentações. Mas no meu caso, nunca quis depender exclusivamente da música. Penso que isso cria uma armadilha. Você acaba muitas vezes tendo que tocar a despeito de querer ou não porque precisa pagar suas contas. Não penso que isso seja saudável.
Você tem um estilo musical próprio. Mas você nunca pensou, por exemplo, em explorar ritmos nacionais como a bossa-nova, samba, toada, etc?
No meu trabalho Intimidade tenho um samba-canção, Cartas e Letras. Mas acho que por ser paulistano, recebi várias influências e meu trabalho é um reflexo de todas elas.
A impressão que tenho é que você não tem dificuldades para compor, que a inspiração “jorra sem parar”. Estou correto?
Eu considero minha produção extensa, principalmente se levar em consideração que nunca dediquei todo o meu tempo a ela. Acho que o segredo disso é estar sensível às coisas e pessoas que o cercam. Isso é matéria-prima de todo artista.
Outros cantores te pendem canções para regravar? Você é rigoroso em conceder alguma de suas músicas?
Recebo pedidos de outras pessoas, sim. Procuro saber qual o propósito das pessoas que querem gravá-las.
Como se deu sua formação musical? Por exemplo, você passou por alguma escola de música?
Comecei a estudar violão aos 12 anos de idade, com uma professora. Depois estudei com outro professor, e mais adiante no CLAM (Centro Livre de Aprendizagem Musical), onde estudei baixo. Estudei ainda com Cláudio Bertrami (baixo) e Mozart Melo (violão).
Tem muita gente boa no meio evangélico fazendo MPB de boa qualidade. Você tem acompanhado? Gostou mais de algum?
Gosto do João, do Carlinhos Veiga e do Gladir Cabral (talvez nosso maior poeta)
Quais cantores e grupos evangélicos você gosta de ouvir?
Os mencionados acima.
Quais compositores evangélicos você admira mais o talento?
Acho o João o mais talentoso.
Você disse que está compondo novas canções. Já tem o suficiente para o seu 7º disco-solo? Ou tem outros planos na área musical?
Tenho canções para um novo álbum. Alguns salmos, outras com temas variados e algumas inspiradas nos pais da igreja (Santo Agostinho, Santo Irineu) e em místicos (Dionísio pseudo-areopagita).
Deixe uma mensagem aos internautas do ARQUIVO GOSPEL:
Agradeço pelo espaço e desejo a todos uma caminhada saudável em sua fé.
Contato:
www.jorgecamargo.com.br
jorgegcamargo@ig.com.br