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COM NOVO ALVORECER E CAFÉ

    O cantor, músico, arranjador e compositor Daniel Vieira Ramos Filho foi integrante do NOVO ALVORECER, conjunto que fez história na música evangélica em seus 16 anos de existência, ou seja, de 1966 a 1982, e que deixou a marca de 12 LPs gravados, dos quais ele participou dos 10 últimos discos.
Embora o Novo Alvorecer tenha sido criado em 1966, o Daniel entrou no grupo em 1970 e veio a se tornar o principal compositor do grupo. Em 1980 ele veio a integrar, também o grupo Café que lançou 2 LPs: o Canções para um Festival Evangélico (1980) e o Mutirões (1984).

   O Daniel Vieira foi um daqueles que inovou a música evangélica com canções de temática social que tratavam dos problemas sociais do País, numa época em que se vivia ainda a ditadura militar no Brasil, além de compor músicas que exploravam os ritmos brasileiros.

   Atendendo um convite do Arquivo Gospel, o Daniel Vieira, hoje morando em Santos-SP, concedeu gentilmente essa entrevista, por e-mail, no final de maio de 2005.


   ARQUIVO GOSPEL: Como era sua participação no Novo Alvorecer?

   DANIEL VIEIRA: Além de compor para o grupo, também tocava e participava dos arranjos juntamente com os mais experientes: Clayton, Íris, Ivani, Luiza, Sandra, Silvina... O regente era o Clayton e o diretor era o Sr. Agenor.

   Onde era mais comum as apresentações do Novo Alvorecer?

   Íamos onde éramos chamados, mas com certeza as igrejas eram as que mais nos convidavam.

   Os evangélicos da época aceitavam bem o Novo Alvorecer?

   O N. A. nasceu nos anos “60”, por isso, foi uma espécie de desbravador, como se estivesse preparando o terreno para os grupos que haveriam de vir. Os evangélicos na sua maioria tinham preconceitos com os ritmos e instrumentos que não fossem os tradicionalmente usados nas igrejas, mas no final dos anos “70”, juntamente com novos grupos que foram surgindo, já tínhamos conseguido romper com a maioria desses preconceitos. Eu tenho certeza, que fomos bem aceitos, mesmo porque, levávamos a Palavra de Deus.

   Você saberia dizer por que o Novo Alvorecer não teve a mesma projeção do grupo Vencedores por Cristo?

   Não posso concordar com a afirmação que há na sua pergunta, porque acho difícil mensurar uma projeção, onde o projeto não era nosso. Sempre acreditamos que era de Deus. Por outro lado, não fomos contemporâneos o tempo todo e nunca recebemos subsídios da nossa denominação para investir em mídia. Nós éramos simplesmente um grupo de jovens que só queria cantar a verdade que vivia; nunca pensamos em nos tornar instituição.

   Você compôs canções mencionando vários problemas sociais que existiam na época. Como os evangélicos viam suas músicas?

   Não gostavam muito, preferiam que minhas músicas só falassem das coisas lá do céu e para mim era muito difícil. A manifestação de Deus acontece na sociedade e Ele espera que a transformemos. A maioria dos evangélicos gostaria de ter nascido anjo e você há de convir comigo que fica difícil escrever para anjo.

   Você me disse que teve que alterar a letra de algumas de suas composições. Houve alguma censura direta pelos militares?

   Antes de compor canções de cunho religioso participava de festivais universitários (MPB). Nessa época tive vários problemas. Quanto às composições para o N. A. , tivemos que alterar letras e subtrair determinadas músicas, mas em função de uma pré-análise da própria produção.

   Os militares da ditadura fiscalizavam a música evangélica da época? Você conhece algum caso de punição de músicos evangélicos pelos ditadores?

   Evangélicos que foram punidos por causa dos seus ideais eu conheço, mas não em função diretamente da música evangélica. O evangélico na sua grande maioria sempre foi alienado politicamente; não chegavam a incomodar os “homens”, ao contrário, conheço muitos que comungavam e comungam das mesmas ideologias dos ditadores até hoje.

   Como se deu sua saída do Novo Alvorecer e a criação do Café?

   Por contingência da vida, aquela moçada que gostava de cantar foi crescendo, casando, tendo filhos, mudando-se pra lugares distantes. Começou a ficar difícil até para nos vermos. O N.A. até que tentou. Nos últimos anos só nos encontrávamos para gravar. Um dia o Rev. Waldomiro P. de Oliveira convidou-me para jurado de um festival que tinha um diferencial, (eu acabava de voltar de Lima no Peru onde participei de um congresso pela ULAJE), onde um dos enfoques era a necessidade que o povo latino-americano tinha de promover em suas comunidades uma resistência cultural, visto que a nossa identidade corria um sério risco... cantar a música “deles”... cantar do jeito “deles”... cantar versões “deles”... Manter-nos como “colônia” é conveniente até hoje. Esse festival chamava-se C.A.F.E. (Canções para um Festival Evangélico). O diferencial era este: um festival com músicas e ritmos brasileiros. O grupo Café surgiu da necessidade de gravarmos as vencedoras num espaço de tempo muito curto, que resultou na convocação de um pessoal experiente. Então naturalmente o Café aconteceu.


   Você continua compondo música evangélica? Trabalha com música?

   Continuo compondo, mas minha música hoje, não dá para cantar em igrejas.

   Por que o grupo Café não teve uma vida longa como o Novo Alvorecer? O Café tinha uma proposta musical muito difícil de se implantar nos anos 80?

   A proposta do Café é difícil de implantar até hoje. Para o grupo, instrumentos e ritmos brasileiros era só questão de fidelidade. As músicas e a ideologia é que levariam o movimento em que acreditávamos adiante. Queríamos os evangélicos cantando nossas canções como povo e não como evangélicos subtraídos da sociedade. Estou fora há muito tempo e não sei dizer se existem frutos dessa proposta. Eu ainda acho que as igrejas continuam a cantar “corinhos”. O Novo Alvorecer já vivenciou duas décadas, porque Deus assim o quis e por causa da perseverança de um homem chamado Agenor Pereira de Carvalho.

   Existia algum líder no grupo Café?

   O Rev. Valdomiro não participava tocando ou cantando, mas era poeta , ”para raio” e porta voz , além de estar na origem da concepção do grupo. Creio que todos o consideravam líder.

   A Califórnia era uma boa gravadora para a época?

   Foi a primeira que nos anos “60”, abriu as suas portas. Sua direção era muito egoísta, mas atendeu ao nosso propósito. Havia outras, mas não me recordo dos nomes.

   Consta em um dos discos que o 1º lugar no Café foi a música Sol e Sal, do Wolô. Ele chegou a participar desse festival ou somente forneceu essa canção?

   Ele participou e ganhou o festival com essa música.

   Deixe uma mensagem aos internautas do Arquivo Gospel:

   A música tem poder ilimitado, isso é dom de Deus. Os compositores é que a limitam.

Contato:

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