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Havia nos anos 70 um grupo musical que causou muita polêmica com sua música e seu jeito de viver a vida cristã. Era os JOVENS DA VERDADE, que não se resumia só em cantar música cristã, mas edificar o povo de Deus e evangelizar os perdidos. A proposta de viver o Evangelho dos JV era polêmica por divergir do modelo norte-americano, presente na maioria das igrejas da época, ou seja, sem a rigidez dos usos e costumes e a prática da formalidade. A missão JOVENS DA VERDADE foi fundada pelo Jasiel Botelho e o Josafá Vasconcelos, em março de 1968, sendo até hoje o Jasiel o seu presidente. No início não tinham um local fixo para se reunirem, mas hoje a missão continua em plena atividade estando instalada em uma propriedade de 5 alqueires, na cidade de Arujá, a uns 30 Km de São Paulo. Lá funciona um seminário onde pode se formar em Teologia e Missiologia.
Para nos falar sobre o Ministério JOVENS DA VERDADE, especialmente de seu grupo musical, um de seus integrantes desde 1970, o JORGE POLONCA, concedeu gentilmente, em agosto de 2004, esta entrevista ao ARQUIVO GOSPEL:
ARQUIVO GOSPEL - Fale um pouco sobre o livro que você está escrevendo sobre a história do grupo JOVENS DA VERDADE.
Esta questão é interessante. Nós, dos JOVENS DA VERDADE tivemos muitas experiências maravilhosas. Além daquelas vividas em grupo, também vários jovens tiveram algumas experiências pessoais. Eu tive algumas, vi muitas outras e quando vou a alguma igreja sempre estou contando durante as mensagens ou cânticos. Um dia pensei em escrever tanto as minhas como às de meus irmãos, principalmente, as do Josafá. Então comecei a dizer que iria escrever. Não sei como, mas acho que foi o Jasiel que começou a divulgar que eu estaria escrevendo a historia do JV. Por essa razão resolvi começar a contar a história narrando nossas experiências, mas me peguei em uma situação difícil porque nunca imaginava o quanto é difícil escrever. Eu já escrevi o suficiente para dois livros e sempre deleto tudo, pois acho que as pessoas não vão gostar. Agora estou contando com a ajuda de um ex-professor na preparação desse livro. Tentarei registrar a história do JV: sua música e outras coisas de década de 60, 70 e 80.
Como começou os JOVENS DA VERDADE?
Esta resposta seria um pouco longa, mas estará mais detalhadamente no livro, isto é, se eu conseguir escrevê-lo. O Jasiel e o Josafá se conheceram em um acampamento do Palavra da Vida. Jasiel fazia parte do Ministério e o Josafá trabalhava com a MPC. Em um acampamento do Palavra da Vida os dois foram indicados para trabalhar na cozinha como equipantes. O Jasiel estudava no JMC (José Manoel da Conceição), um colégio interno da Igreja Presbiteriana na cidade de Jandira, por isso convidou o Josafá a tentar uma bolsa lá e ele conseguiu. Então a amizade que começou no acampamento se solidificou, pois eles se tornaram grandes amigos e quando o Josafá veio para o colégio foi morar no mesmo quarto que o Jasiel. Nos finais de semanas cada um ia para o seu ministério até que um dia na rodoviária de volta para o colégio, enquanto esperavam o ônibus, sentados em uma pastelaria, surgiu uma pergunta: “Porque a gente não começa um grupo para trabalhar com Jovens?” O Jasiel, que sempre estava desenhando, na hora pegou um guardanapo e já começou a criar a logomarca. Também começaram a pensar um nome e entre vários veio o de JOVENS DA VERDADE. Eu penso que eles não tinham em mente que esse grupo seria para muito tempo ou para toda a vida, senão não teriam colocado o nome de JOVENS da Verdade. Talvez na mente seria um grupo para pouco tempo e depois de formados cada um seguiria seu ministério, mas Deus ali naquele momento tinha no seu coração uma missão que prepararia muitos jovens para pregar o Evangelho não somente no Brasil, mas também em outros países.
Houve alguma influência direta do Movimento de Jesus ou de outros grupos na fundação dos JV?
Acredito que não. O que sei é que o Jasiel trabalhava com o Palavra da Vida e o Josafá com a MPC. Ambos sentiram que poderiam realizar alguma coisa e isto o Espírito Santo colocou no coração deles. Os Vencedores por Cristo neste período estava começando, tanto que consta no jornal deles o registro da missão dos Jovens da Verdade e Vencedores como nascidos praticamente juntos. Vencedores foi uma benção na vida dos jovens brasileiros e sempre cantaram muito lindo e também trabalharam sempre na preparação dos jovens para trabalhar junto às igrejas. Mesmo sendo do JV, eu e minha esposa participamos de uma equipe da VPC, a de nº 99. Não fizemos viagens, mas estivemos em todos os treinamentos e, também, no primeiro programa na cidade de Bananal no Rio de Janeiro. Algo muito importante é que não tínhamos músicos. Quando íamos gravar era o Uassyr que tocava a bateria, o Nelson Bomilcar o baixo e o Sérgio Pimenta o violão.
A missão JOVENS DA VERDADE era uma espécie de igreja independente ou era um ministério vinculado a uma denominação?
Os JV nunca foi igreja. No início era um grupo que queria trabalhar junto à juventude cristã. O principal objetivo do JV era a evangelização. Tanto para os de dentro quanto para os de fora da igreja. Porque de dentro? É que ao começar a ir às igrejas, o JV percebeu que muitos jovens estavam ali porque os pais iam, mas não tinham uma experiência com Cristo.
Havia casos de jovens de outras igrejas rígidas e fechadas saírem de suas congregações para freqüentarem as reuniões dos JOVENS DA VERDADE?
Houve muitos comentários nesse sentido, mas não eram verdadeiros porque a intenção do JV era de levar os jovens a terem um compromisso com Deus e sua igreja local, mas o que acontecia é que jovens chegavam inflamados de uma das reuniões ou acampamento e queriam fazer alguma coisa em sua igreja. Como eles chegavam entusiasmados queriam fazer igual ao que foi feito no acampamento, principalmente com os jovens e adolescentes, entretanto os mais velhos barravam.
Quais discos compõem a discografia dos JOVENS DA VERDADE?
O primeiro foi um compacto com seis músicas, em julho de 1970. O segundo um Lp: Jovens da Verdade nº 1 e se não me engano, em 1971. O terceiro foi Drogas Matam, em 1972. O quarto foi Viagem, em 1973. O quinto Novo Céu e Nova Terra, em 1975. O sexto foi Tão Simples, em 1977. O sétimo foi Vida em Vida, em 1981 sendo este o único que eu não participei. O Oitavo, que é o último, é o primeiro gravado direto em CD pelo grupo, a Banda JOTAVÊ, que hoje vai às igrejas realizando o mesmo trabalho de antes. Este grupo está em plena atividade recebendo convites para participar de acampamentos, realizar programas nas igrejas cantando, testemunhando e pregando a Palavra de Deus. Os outros dois discos são: Um só com músicas do Jasiel gravado em uma cassete que foi passado para CD e o outro só com músicas do Edílson Botelho, que é sobrinho do Jasiel e, também, pastor de uma comunidade na cidade de Campinas. Em suma, são 10 trabalhos e todos estão em CD, podendo ser adquiridos por qualquer pessoa.
Que justificativas havia nos anos 70 pelos que não aceitavam outros instrumentos musicais na música cristã? É que naquela época diziam que certos tipos de música ou instrumentos eram do diabo. Então só podia tocar órgão elétrico ou piano. Outros instrumentos jamais e bateria, então, meu Deus do céu! Tanto é sério que o pessoal da Palavra da Vida levavam um órgão quando iam fazer programas nas igrejas e as músicas todas eram versões de cânticos vindos, principalmente, dos Estados Unidos.
Nos anos 70 havia preconceitos em relação a compositores brasileiros? Em que aspectos ou situações?
O preconceito era por causa dos ritmos como a bossa nova e, principalmente, o samba. Esses não inspiravam espiritualidade, pois o padrão espiritual era o norte-americano ou inglês. Essa influência era tanta que em um acampamento o Jasiel trouxe uma composição própria e mostrou para o Josafá, que era o responsável pelo louvor, mas ele se recusou a ensinar para os acampantes, porque não era uma versão. Em um outro acampamento o Jasiel disse que tinha uma música nova e como ele ainda estava também trabalhando com o Palavra da Vida, o Josafá perguntou? “Você a trouxe do Palavra da Vida? É uma nova versão?” O Jasiel então se omitiu deixando o Josafá entender que era uma música americana traduzida para o português. Aí todos cantaram e a música ficou conhecida em todo o Brasil. Um tempo depois o Jasiel chegou para ele e disse: “Josafá, sabe de quem é esta musica?” E ele repondeu: “É uma versão que você trouxe do Palavra da Vida” E o Jasiel, dando sua característica gargalhada, disse: “Não, esta música foi eu quem compus”. O Josafá então começou “tirar uma com a cara dele”, mas ele percebeu que até ele tinha a tal da influência de fora. Foi neste momento, então, que se deu o início da transformação da música evangélica no Brasil, onde se começou a cantar músicas compostas por jovens brasileiros. Esta música de autoria do Jasiel chama-se “Eu quero andar junto ao Salvador”. Depois veio a de composição do Abdias que é: “Não vou ficar sozinho”, que o cantor Luis de Carvalho gravou agora a pouco tempo dizendo que aprendeu nos Estados Unidos. Por não achar o compositor, colocou autor desconhecido, mas esta música foi para os Estados Unidos através de um jovem americano que participou um tempo dos encontros do JV e gostou tanto que traduziu para o inglês. Os Jovens da Verdade foi o primeiro grupo a gravar um compacto com músicas compostas por jovens brasileiros.
Havia constantes boicotes às apresentações musicais ou aos discos do JV?
Havia uma resistência, pois éramos jovens e era uma época onde os jovens se rebelavam contra a repressão. Por essa razão muitas igrejas tiveram receio e não perceberam ou não quiseram perceber que era um movimento do Espírito.
Quais denominações convidavam os JV com mais freqüência para se apresentarem lá?
No início eram as pequenas igrejas na periferia de São Paulo, pois nos tinham como fortes em cultos ao ar livre e nos convidavam para trabalhos de evangelização. Outra denominação foi a igreja Presbiteriana do Brasil porque o Josafá era membro de uma na Penha, de onde também era o Daniel de Oliveira.
A música dos JV tinha uma maior aceitação dos evangélicos ou dos não-evangélicos?
Não havia ligação com os de fora do Evangelho nessa época. Quem curtia as músicas eram os jovens evangélicos.
Quem eram os líderes do grupo musical?
Esta é difícil de responder, pois vários tocavam violão e nós tínhamos quatro grupos dentro da missão. Dois que se denominavam grupo de igreja e dois de rua, que era os que iam aos bairros realizando evangelização de casa em casa e em todos tinha um que liderava a música. Na equipe A, da qual eu fazia parte, eu era quem tocava violão. E olha que ao chegar nos JV não sabia tocar. Isto também foi algo muito bom, pois todos queriam saber um pouco em relação à música. Depois chegou o Edílson Botelho, com 13 anos de idade, e com dezenas de músicas de vários estilos brasileiros. Do LP Novo Céu e Nova Terra para frente, a maioria das músicas gravadas são dele.
Como está hoje o ministério JOVENS DA VERDADE?
Hoje o JV tem grandes atividades com o acampamento, escola teológica, encontro de liderança junto com a MPC. O Jasiel nos fins de semana vai às igrejas ministrar e, também, com a Ivone, sua esposa, trabalhar com encontro de casais. O Gilson também trabalha muito com suas composições e tem gravado muitos Cd’s. A Banda JOTAVÊ é convidada pelas igrejas onde ministra a música, testemunhos e a palavra de Deus, além de ser convidada para ministrar em acampamentos e outros lugares.
O grupo JOVENS DA VERDADE quase não aparece na mídia evangélica. Isso se deve a vocês ou seria desinteresse da própria mídia?
Muita gente me liga de revistas gospel e rádios, mas vejo uma coisa muito mercenária onde o interesse é outro, então da parte do grupo que estou à frente não tenho aceitado participar. Não falo pelo ministério lá do acampamento que acho que partilham das mesmas idéias que acredito.
Deixe uma mensagem aos internautas do ARQUIVO GOSPEL:
Que ameis uns aos outros e a Deus com toda intensidade de suas vidas. Eu falei da mídia. Naquela época se distinguia uma pessoa quando se falava evangélico. Hoje é difícil, pois os de fora olham para os da igreja com desconfiança e estão incluindo a todos como quem tem interesse em tudo, menos em ter uma vida com compromisso. Os de fora estão nos olhando e muitos estão perdendo a oportunidade de virem a Cristo, porque não estão vendo vidas transformadas, mas sim grupos, igrejas e outras coisas entusiasmadas por Jesus. Porém o Evangelho nos convida a vivermos uma vida de testemunho e não de atividades como se falar, tocar, cantar e outras coisas em si fizesse alguém ter uma vida cheia do Espírito Santo. A Bíblia sempre nos convida a conhecermos mais a Deus; e este é meu convite a todos. Vamos juntos trocarmos idéias, experiências e buscá-lo e fazer crescer esta comunidade cristã que é seu povo.
Que Deus abençoe a todos!
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