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O MENESTREL DE BRASÍLIA

    Atilano Muradas é um cristão cheio de dons. É cantor, compositor, jornalista, teólogo, pastor, violonista, cavaquinhista, produtor musical, escritor, além de ser militar do Exército. Há onze anos mora em Brasília, é casado com a Odontopediatra e Pedagoga. Isildinha Muradas e tem dois filhos: Atilano Júnior e Asaph. Tem três livros publicados: Tocar violão é fácil (Editora Betânia), Decolando nas asas do louvor e A música dentro e fora da igreja, ambos publicados pela Editora Vida. Desde 1997 é o compositor oficial dos sambas-enredo da Escola de Samba Jesus Bom à Beça que desfila todos os anos no carnaval curitibano. A Escola sagrou-se campeã do carnaval de Curitiba em 2001 e 2003.

   A discografia de Atilano é composta por 6 CDs: Minha Geração (1995), Brasileiros (1997), Carta aos levitas (1999), Missões (2002), O Brasil precisa de Deus (2002) e Canto Brasileiro (2004). Atilano Muradas é um defensor da presença de ritmos brasileiros nas reuniões da igreja, por isso seus discos exploram os mais variados ritmos nacionais: samba, pagode, choro, samba-enredo, frevo, baião, forró, etc.
Lançando seu 6º CD, Atilano Muradas concedeu gentilmente esta entrevista, em 26 de janeiro de 2005, via e-mail, ao Arquivo gospel.

   Esse novo disco, o “Canto Brasileiro” parece uma continuidade do CD Brasileiros? Daqui pra frente seus discos serão semelhantes a eles?

   Atilano – Não só do Brasileiros. Ele é uma continuidade dos demais CDs que lancei no aspecto do estilo musical brasileiro, mas no sentido de proposta das letras ele é totalmente diferente. Os anteriores tinham muito o aspecto de ensino. Canto Brasileiro vem com músicas para serem cantadas no louvor congregacional. As letras são de louvor, adoração e exaltação a Deus. Cada CD meu tem uma proposta diferente. Gosto de sempre surpreender meus ouvintes com coisas inusitadas, novas, diferentes. Tanto eles quanto eu estamos cansados da mesmice em que a música está se tornando. Todo mundo imitando todo mundo, e tudo parecendo igual. Onde está a criatividade?

   Como você consegue conciliar todas as atividades em que você está envolvido? (família, música, igreja e trabalho no Exército)

  
Atilano – Com muita disciplina e organização. Não paro nenhum minuto. Agora, um segredo de quem faz muita coisa ao mesmo tempo é o seguinte: quando realizo uma atividade descanso a cabeça da anterior e assim por diante. Outro segredo é ser diligente. Só paro uma coisa no dia que termino essa coisa. Não deixo nada pelo caminho. Coloco em ordem de prioridade e procuro resolver todas as coisas, sem faltar nenhuma.

   Você sofre constantemente preconceitos de evangélicos por causa de sua música?

   Atilano – A cada ano o preconceito quanto à música cristã em ritmo brasileiro tem diminuído mais. Acho que estou conseguindo ser entendido por que persisti na minha idéia e lancei vários CDs e livros que discorrem sobre esse assunto e tiram dúvidas a respeito. Tenho influenciado muita gente, mas sei que não sou o único. Tenho vários amigos que também lutam como eu pela nacionalização do nosso louvor congregacional. Divido com eles as pedras e os tapinhas nas costas.

   Como é que foi a participação da Escola de Samba Jesus Bom à Beça no carnaval de 2004 e como estão os preparativos para o desfile de 2005?

   Atilano – Em 2004 ganhamos....experiência. Em 2005 estamos saindo com o samba-enredo As parábolas de Jesus e esperamos fazer, além de uma boa apresentação, um excelente impacto evangelístico, com muitas vidas sendo salvas. A Escola já está se preparando e eu estarei entre os puxadores tocando o meu cavaquinho, em nome de Jesus.

    Você vê hoje uma maior aceitação da Escola de Samba Jesus Bom à Beça por parte dos evangélicos?

   Atilano – Evidentemente que sim, afinal, já são oito anos desfilando sem exageros, com unção, com resultados mensuráveis. Todos que se interessaram em saber sobre a Escola perceberam a solidez do trabalho. Além disto, todo ano as revistas evangélicas têm falado sobre o assunto pelo lado positivo, falando não só da nossa Escola como também de blocos por todo o Brasil com a mesma proposta nossa. No afã de dar mais credibilidade ao trabalho, dediquei um capítulo do meu livro A música dentro e fora da Igreja à Escola. O livro, além de ter sido bem aceito pelos leitores, foi elogiado pela crítica e foi ganhador do Prêmio ABEC 2003, na categoria literatura cristã nacional. Tudo isso reforça a importância da Escola e sua eficaz participação na expansão do Reino de Deus de forma contextualizada.

   De onde vem ou como foi sua aprendizagem musical?

   Atilano –Meus pais são regentes de coro desde antes de eu nascer. Já nasci no meio musical. Meu pai é violonista e me ensinou o gosto pela boa música brasileira e também pelos hinos dos diversos hinários. Meu pai nunca parou para me ensinar música e eu nunca freqüentei escola de música. Sempre fui autodidata, perguntando e um e outro amigo sobre música, lendo bastante, observando. Ficava horas por dia buscando aprender violão. Quando tinha uns dois anos que já tocava alguma coisa fiz algo que muito me ensinou música: passei a ensinar música. Assim fazendo, eu era obrigado a estar me aprimorando a cada dia. Tomei gosto pela composição e aí não parei mais. Do violão passei ao cavaquinho e hoje estou aprendendo flauta transversal, um sonho antigo.

   Quando, como e onde foi sua conversão?

   Atilano – Sou nascido em berço presbiteriano e nele permaneci até os 24 anos, quando fui para a igreja batista. Aos 19 anos eu estava muito indeciso quanto a permanecer ou não na igreja, devido a muitos fatores. Compartilhei isso com uma amiga e ela me aconselhou a ter um encontro real com Jesus. No momento que ela orou eu senti pela primeira vez a presença profundo de Deus. Daquele dia em diante eu tive certeza de que eu era salvo e que Deus tinha um plano maravilhoso em minha vida.

   Como compositor você tem facilidade para compor ou é sempre um “parto”?

   Atilano – Componho com muita facilidade sobre qualquer coisa. Aliás, tenho mais facilidade para inventar uma música do que para aprender alguma que já existe. Não me pergunte o porque. Dom não se explica, se tem apenas. Evidentemente que hoje eu não componho toda hora porque tenho buscado compor aquilo que realmente vai gerar algum resultado. Do contrário, já tenho tanta música que não sei se preciso aumentar o volume do baú todos os dias.

   Você tem composições “engavetadas” ou compõe somente na época de gravação?

   Atilano – Tenho mais de 500 músicas engavetadas de todos os estilos, mas quando faço um novo projeto não resisto em fazer algumas novas para compor o CD. Para esse novo CD mesmo eu fiz quase todas no ano da gravação.

   Você tem o hábito de “lapidar” suas canções ou você preserva a espontaneidade?

   Atilano – Faço uma música em menos de uma hora, gravo numa fita e fico ouvindo e analisando vários dias e fazendo as devidas correções. Algumas músicas, no final, estão bem diferente do que quando foram concebidas. Busco a maior perfeição possível, afinal, as pessoas merecem ouvir um produto bem acabado, com sentido. Alguém pode até não achar bonito, mas dizer que está mal feito, isso eu não quero ouvir jamais. Antes de tudo penso que estou fazendo para a glória de Deus, então tem que ser o melhor que eu posso.

   Qual igreja você congrega? Lá você tem abertura para explorar ritmos brasileiros durante as reuniões?

   Atilano – Sou da 3ª Igreja Batista do Plano Piloto, em Brasília. É uma igreja muito aberta a novas tendências, porém com prudência e equilíbrio. Lá tocamos todo tipo de ritmo, mas claro, ainda predomina o que todas as outras igrejas têm cantado.

   Como você vê hoje a música de louvor e adoração presente na maioria das igrejas? Estamos mais pertos de ter músicas de louvor e adoração em ritmos nacionais?

   Atilano – Na maneira como está, a tendência é ficarmos cada vez mais norte-americanizados. Algo precisa acontecer. A geração atual está sem expressão e faz questão descarada de copiar quem está dando certo. Acho que pensam que não são capazes de criar alguma expressão. Em contraponto temos alguns segmentos fazendo experimentações bem vindas, mas sem um direcionamento certo. Querem fazer hip-hop, street, rock, dentro da igreja. Desconhecem que, por filosofia, essas manifestações são ótimas estratégias de evangelismo e não de louvor. É um problema de conceituação do que seja música para se cantar dentro da Igreja e música para se cantar fora. Contudo, tenho sentido mais facilidade hoje do movimento pró-música brasileira na Igreja se expandir do que no passado.

   O Brasil é considerado o país do samba, mas a representatividade dele nas igrejas evangélicas é modesta. Você vê muitas barreiras ao samba na igreja?

   Atilano – Não só ao samba, mas a todo ritmo que se associe com festas carnavalescas, como timbalada, axé, boi e carimbo. Muito antes de se tentar cantar samba na igreja, já se cantava valsas, forró, sertanejo, inclusive nos hinos. Ninguém falava nada porque havia muita ignorância musical – e ainda existe. No entanto, a prática tem mostrado que se cantamos com mais freqüência, rapidamente o povo se acostuma e não se preocupa mais. Contudo não posso deixar de dizer que os líderes são muito mais preconceituosos que os membros. Eles ficam tão preocupados com a teologia e com o que o povo vai pensar que não se libertam da escravidão da tradição.

   Você é praticamente o único cantor evangélico que canta chorinho e samba-enredo atualmente; antes de você era somente o cantor Maurão. Por isso eu pergunto: é difícil compor, cantar e tocar nesses 2 estilos?

   Atilano – Para se compor num determinado estilo é preciso escutá-lo bastante. Escuto todo tipo de música, mesmo aquelas que não me agradam o ritmo, afinal, não sou obrigado a gostar de tudo. O choro e o samba-enredo são dois ritmos difíceis de tocar e que exigem muita atenção, prática, estudo. Creio que qualquer músico dedicado possa conseguir também tocar e compor nesse ritmo, desde que decida se dedicar a ele com persistência. Bem, apesar de ser meu amigo, eu não conheço a obra toda do Maurão, mas eu sei que ele faz música brasileira e tem uma performance bem própria. É um cara fantástico assim como outros que também fazem música brasileira genuína.

   Que cantores e bandas você aprecia em termos de música evangélica?

   Atilano – Aprecio a obra de alguns artistas, tendo em vista que muitos têm uma expressão muito comercial e apelativa, que me afugenta de seus CDs. Gosto muito do Carlinhos Veiga, Saul Gutman, Gilson Resende, Leon Neto, Banda Sal da Terra, Banda Expresso Luz, Daniel Maia, André de Oliveira, João Alexandre, Asaph Borba. Agora saiu uma cantora muito boa de São Paulo, a Priscila. A Banda Cia de Jesus de Anápolis, a Estação Luz, de São Paulo, Estilo de Vida e Raízes, de Brasília. Os Vencedores por Cristo têm se modernizado e têm feito um bom trabalho, além de ter nos legado obras memoráveis.

   Qual compositor evangélico você admira as canções? E por quê?

   Atilano – Gosto de muitos e de mim também. Não poderia dizer que aquele ou esse é o melhor ou o que eu mais admiro. Sou amigo de quase todos e não quero ofendê-los. Acho que cada um se destaca dentro do seu estilo. Alguns nem são conhecidos do grande público e outros nem eu conheço. Posso citar aqueles que vejo como bons compositores e têm feito um excelente trabalho de difusão de suas músicas: Carlinhos Veiga, Daniel Maia, Asaph Borba, Gilson Resende, Saul Gutman, Patrícia Moraes, André de Oliveira, Gláucia Carvalho, Vanessa Pinheiro, Davi Silva, Jorge Rehder, Reny Cruvinel, Wolô, Sérgio Pimenta, Rogério Carvalho. São só os que eu lembrei agora. Se for continuar a lista, não acabarei tão cedo. Acho que cada um de nós tem feito o melhor que pode para enriquecer o Reino de Deus. E cada dia em minhas andanças faço questão de ouvir novos compositores. Tenho me surpreendido, tanto com belas canções quanto pelo descaso da igreja local em não utilizar as músicas desse compositor local. Mas, isso é assunto para outro dia.

   Seu próximo disco sairá em 2005? (Caso afirmativo, já poderia adiantar alguma coisa dele?)

   Atilano – Estou gravando meu sétimo CD, Abstratos. É um CD de músicas não evangélicas. O objetivo é entrar no mercado secular e mostrar o outro lado do compositor Atilano. As músicas, porém, não ofendem os princípios bíblicos e não atrapalham meu trabalho evangélico. É um registro de algumas das muitas músicas que fiz sem um cunho cristão, apenas música e letra. Usando meu dom para entreter, dizer coisas bonitas, louvar a vida que Deus nos deu.

   Deixe uma mensagem aos internautas do ARQUIVO GOSPEL.

   Atilano – Minhas mensagens são sempre de entusiasmo e incentivo. Acredite nos seus sonhos. Seja persistente até conseguí-los. Jamais abandone os caminhos do Senhor. Tudo que você sabe e faz, dedique ao Senhor. Tudo é dEle e para Ele. Nós somos nada sem Deus. E termino com a pergunta que sempre faço a quem está perto de mim: Qual o seu projeto?

Contato:

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