Tem sido muito comum a conversão de artistas seculares, ou seja, cantores e músicos consagrados na mídia secular, conhecidos do grande público. Tenho tido acesso a LPs de celebridades convertidas desde os anos 60, mas não se pode descartar a possibilidade de haver casos dos anos 50 para trás. A título de exemplo podemos citar: JACY MENEZES, SILVINHO, JOSÉ TOSTES, ED WILSON, WANDERLEY CARDOSO, CARMEM SILVA, RONALDO ADRIANO, TONY DAMITO, etc. E quando chegam em nosso meio sempre geram dúvidas se devem ou não continuar a carreira musical no meio secular ou se deve abandoná-la e cantar música evangélica. Até hoje o público evangélico espera e até pressiona para que a celebridade só cante música evangélica, mas há diversos casos em que ele não cede a essa pressão. Fornecer sugestões e orientações para auxiliar nessa decisão é a proposta desse texto.
Em primeiro lugar não existe, na maioria dos casos, base bíblica para condenar aqueles artistas que preferem continuar sua carreira no meio secular. Agora se o artista sente que ficar no meio secular é uma constante tentação à prática do pecado, que o leva a continuar sendo a velha criatura, então é recomendável que a celebridade saia do meio. Jesus nos encoraja a fazer isso dizendo que se o que a gente faz, se os lugares aonde a gente vai e se os nossos alvos nos levam ao pecado é melhor, então, abandonar tudo isso para poder ganhar a salvação (Mc 9:43-48).
Há muitos casos de artistas já serem consagrados ali, tirando por conseguinte o seu sustento desse meio. Cito por exemplos os casos do Serginho e Cleberson (do grupo ROUPA NOVA), do RALF (dupla CHRISTIAN E RALPH) e da cantora country PAULA HUNTER que mesmo assumindo a conversão preferem continuar no meio secular. Obviamente a maioria das canções desses artistas não fere as doutrinas cristãs, por isso não vejo problemas de eles continuarem no meio secular. Entretanto acho que todo artista deve evitar as canções de seu repertório que possam ir de encontro com os valores cristãos. Vamos criar um exemplo para ilustrar isso: supomos que um artista tenha uma canção em que ele diz que vai trair sua esposa porque ela o traiu. Essa canção contém indícios de vingança e adultério, que são pecados condenados pela Palavra de Deus (Rm 12:17-21), portanto essa canção deveria ser cancelada do repertório. Em suma, com a conversão o/a artista deve proceder mais crítico e seletivo das canções que irá interpretar.
Outro caso a se considerar é que há artistas cuja vida e obra no meio secular sempre foi regada por palavras e condutas não-cristãs. Por isso é uma boa atitude o/a artista abandonar ou mudar o foco de sua carreira. Veja o caso do RODOLFO ABRANTES, que na banda RAIMUNDOS não conseguiu permanecer, porque quando a conversão acontece, não há clima para conviver constantemente com o pecado. Ao criar a banda RODOX, o Rodolfo afirmou publicamente que não pretendia ser uma banda gospel, mas uma coisa é certa: analisando as letras dos seus 2 CDs, constataremos que seu trabalho atual é bem diferente da música dos tempos do RAIMUNDOS. Está muito mais para evangélico do que para secular, especialmente o CD Estreito. Cito, também, o cantor cearense CARLOS RILMAR, considerado um dos maiores forrozeiros que o Ceará revelou, mas que preferiu abandonar totalmente sua carreira no meio secular para se dedicar à música evangélica. Mudou até de aparência. A sua decisão se deu porque a sua vida bem como sua obra secular eram notoriamente carregados de uma imagem pecaminosa. Temos ainda o caso do ex-paquito XAND (Alexandre Canhoni), revelado pela Xuxa, que ao se converter abandonou totalmente a sua carreira secular. Até as lembranças de fãs, prêmios e discos de ouro chegou a queimar.
Encorajar ou incentivar a celebridade a gravar música evangélica, que mal acaba de entrar na igreja, é uma atitude precipitada que pode comprometer a imagem da igreja e dos evangélicos, bem como da música evangélica. Sem contar que o artista pode ficar queimado diante dos evangélicos e ficar desmotivado para permanecer na igreja. A comunidade evangélica no geral fica com um pé atrás diante do artista recém-convertido que grava um CD evangélico. É preciso paciência e aguardar mais um pouco. Já tivemos casos negativos em nosso meio. É bom esperar pelo momento certo, ou seja, o tempo de Deus. Veja o bom exemplo da cantora e pioneira da bossa nova WANDA SÁ, famosa até mesmo fora do Brasil. Depois de 20 anos de conversão, só em 2004 lançou seu primeiro CD evangélico. Outro caso é o da famosa cantora BABY DO BRASIL que com seu reconhecido talento e mais de 4 anos de conversão, só lançou até hoje um CD evangélica: o Exclusivamente para Deus, em 2000.
Independente do que o artista pretenda fazer com sua carreira musical, após sua conversão e batismo, ele/a precisa passar por um discipulado. A pessoa que quer seguir algo ou alguém precisa saber mais sobre em que, ou em quem, está depositando sua fé. E se a pessoa planeja cantar a serviço do Reino de Deus precisa conhecer seus valores e suas verdades para cantar corretamente.
Discipular é tornar a pessoa um seguidor fiel de Jesus Cristo. Para tanto, após o batismo do/a artista, é preciso ensinar-lhe as coisas mais essenciais do Evangelho de Jesus Cristo, tais como as pessoas da trindade, a autoridade da Bíblia, o pecado, a oração, as virtudes cristãs, o juízo final, a importância da igreja, o amor, a esperança, etc.
O discipulado é algo que começa depois do batismo e vai até a pessoa se encontrar com Jesus na vida eterna, todavia é necessária uma introdução ao discipulado, cujo tempo mínimo ideal para o artista deveria ficar em pelo menos 30 horas/aula. Um irmão e/ou irmã, experiente na fé e conhecedor/a da Bíblia ficaria responsável pelo artista, bem como o artista deveria se comprometer em fazer essa introdução à vida cristã.
Para aquelas celebridades que decidirem seguir a carreira musical dentro da música evangélica, gostaria de dar algumas sugestões:
1. Orientar o/a artista na escolha definitiva
Muitos artistas acham que a Bíblia os obriga a abandonar sua carreira no meio secular junto com sua conversão e batismo. Continuar cantando música secular ou iniciar a carreira gospel é uma decisão do artista e não da igreja ou do pastor. Se a igreja quiser impor a decisão, então recomendo que o artista procure outra igreja. Obviamente estou falando do caso de artistas cuja maioria das suas músicas não firam os princípios e valores do Evangelho. Se ferirem o Evangelho só há uma opção: deixar a carreira musical secular.
2. Fornecer uma introdução ao denominacionalismo
É importante que o artista adquira noções gerais de denominacionalismo, pois muitas vezes o artista será convidado para cantar ou tocar em diversas igrejas, com doutrinas divergentes daquela igreja que ele congrega. Se quiser evitar gafes e ofensas, é necessário ter uma idéia do que seja igreja tradicional, renovada e pentecostal. Imagine o caso de um artista que vai se apresentar em uma igreja histórica e dizer que na igreja onde ele congrega existem apóstolos. Falar isso lá é uma heresia.
3. Introduzir o artista à música evangélica
Muitos artistas se convertem com uma noção errada e até preconceituosa da música evangélica, talvez por isso não se interessam em cantar para Jesus, nem mesmo ouvir música evangélica. Por isso é necessário o artista conhecer alguns dos principais compositores, bem como conhecer outros artistas e bandas que cantam parecido com seu trabalho.
4. Dar uma boa introdução do livro dos Salmos
Os artistas deveriam fazer um estudo introdutório sobre o livro de Salmos, que é um hinário, além de serem encorajados a lerem-no. Ali o artista encontrará inspiração e conhecimento para compor com conteúdo e profundidade.
5. Criar uma consciência no artista do que ele enfrentará pela frente
Muita gente costuma interpretar mal o artista convertido que resolve cantar música evangélica, mesmo que ele tenha deixado claro que sua conversão é genuína. Dizem que ele/a está querendo abusar da boa vontade dos evangélicos. Que está cantando música gospel porque não estava conseguindo ter sucesso no meio secular. Que só quer ampliar seu número de fãs. O artista precisa se acostumar com essas críticas, senão poderá desanimar. Infelizmente existem muitos irmãos e irmãs que não dão crédito, que não dão uma oportunidade, que não espera o tempo passar para ver. Dão logo espaço ao pecado da malícia fazendo seu próprio julgamento e condenando, sem antes abençoar e orar pelo artista. Os artistas não devem levar em consideração a atitude desses irmãos, mas somente daqueles/as que derem a maior força, o maior apoio.
6. Procurar ajuda de um pastor e/ou teólogo para revisar suas canções evangélicas
Alguns artistas evangélicos têm letras que são estranhas e duvidosas à fé evangélica e até mesmo à Bíblia. Por isso, a celebridade deve ser assessorada para evitar que doutrinas humanas e até heresias estejam em suas canções.
7. Conscientizar a celebridade sobre os perigos do cachê
Cantar e tocar é só o que sabe fazer a maioria das celebridades. Sobrevivem e mantém sua carreira, seu padrão de vida e de sua família, através da música. As igrejas não podem ser insensíveis a isso, como também as celebridades não podem ser insensíveis à realidade e à essência da igreja. Igreja não é empresa, tampouco casa de caridade. A igreja não é lugar para ganhar dinheiro e enriquecer. A Igreja é o corpo de Jesus Cristo, bem como o lugar de desenvolvimento espiritual do povo de Deus.
No geral os evangélicos não gostam da palavra "cachê". Preferem substituí-la por "oferta" ou "contribuição" ao ministério do artista, ou ministro, ou adorador. Os fins são os mesmos, embora os meios têm algumas pequenas diferenças. Particularmente não vejo problema em utilizar a palavra cachê, pois muitas vezes a "oferta" ou "contribuição" paga ou cobrada é maior do que o cachê.
Para que o artista e a igreja não cometam injustiças, é preciso adotar alguns critérios com relação ao cachê. Em primeiro lugar, o artista convertido nunca deveria cobrar para dar testemunho e cantar em reuniões, dentro das instalações da igreja. Poderia no máximo vender seus CDs do lado de fora, depois das reuniões. Obviamente, a igreja que o convida, deve arcar com estadia e alimentação do artista. Entretanto por uma questão de compaixão e humildade, o artista deve aceitar a estadia e alimentação possível ao orçamento da igreja.
Se o artista vai se apresentar em casas de shows, deve cobrar cachê, todavia deve sempre adotar preços mais justos, ou seja, mais em conta para quem está organizando ou indo aos shows. O artista deve evitar, a ganância e a avareza, mesmo que seja só de aparência.
8. O artista deve ter cuidado com seu vocabulário
Tudo que o artista fala tem sempre um peso maior. Se um artista diz um palavrão em público, os evangélicos não costumam perdoar essa atitude. Também se o artista transmitir aos crentes que ele merece toda a honra e glória pelo seu talento ou negar que seja evangélico, ou negar que sua música seja evangélica, conseqüentemente sofrerá a ira dos crentes. Por isso toda celebridade deve pensar bem no que vai dizer em público. Uns anos atrás uma celebridade evangélica disse em um programa da BAND, de grande audiência, que estava orando pela conversão do padre MARCELO ROSSI. Não foram palavras sábias por parte da celebridade. Falar em público é muito perigoso, por isso se o talento da pessoa é cantar, deve evitar o máximo ficar falando, expondo suas opiniões pessoais, pondo em risco sua carreira musical e a imagem dos evangélicos.
Por último gostaria de falar uma coisa a todos os cristãos evangélicos. Precisamos acreditar que Deus tem um propósito em converter gente famosa do Brasil para servi-lo. Temos exemplos de celebridades nacionais que estão fazendo isso, tais como a MARA MARAVILHA e o NELSON NED, que onde quer que aparecem tem dado um bom testemunho, além de trazerem uma música que tem edificado muita gente. Não deveríamos ficar fazendo especulações sobre a conversão de uma celebridade musical, se têm ou não boas intenções. Deveríamos é fazer o que está ao nosso alcance para que ela se firme na fé, seja orando, jejuando, encorajando, ensinando, aconselhando, abençoando e comprando seus CDs evangélicos. Uma celebridade musical convertida merece todos os cuidados que um recém-convertido precisa, ou seja, se ela não tiver todos os cuidados necessários para seu crescimento espiritual, é bem provável que não ficará na igreja aguentando um monte de críticas e especulações.
BIBLIOGRAFIA
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Revista ECLÉSIA, Ano 9, nº. 97, São Paulo, jan/2004.
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