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Autor: SALVADOR DE SOUSA
Edição:
2ª edição – 24/08/2007
: 12

Ficção na música evangélica

    É muito comum ver canções evangélicas que narram acontecimentos, situações, casos, estórias e histórias, contadas com exageros e humorismo, que manifestadamente são fruto da invenção criativa do compositor. Algumas são tão exageradas que fogem da normalidade. Outras até parecem que realmente aconteceram, todavia foram criadas pelo compositor para ensinar alguma lição bíblica. Temos três tipos desses tipos de canções que gostaria de avaliar seus usos na música evangélica.

   I – Canções que são ou se aproximam de parábolas

   A parábola é caracterizada principalmente como uma pequena história que só o seu autor poderia nos dizer se realmente aconteceu ou não, se é realmente baseada em um acontecimento real ou se foi totalmente inventada. Ela sempre tem uma lição a nos dar. Jesus se utilizava muito das parábolas. O Novo Testamento registrou 44 parábolas de sua autoria, segundo o Dicionário da Bíblia Almeida. O Velho Testamento contém, também, várias parábolas. Existem diversas canções evangélicas que são ou quase são parábolas. Exemplos:

      1. Vagando (AKZA), que narra a história de alguém que estava andando sem rumo pelas ruas de Brasília, quando ao ouvir um show de rock gospel foi tocado pela mensagem do evangelho

      2. Tommy (ALMA & LUA), que tenta convencer um suposto Tommy que a solução para sua vida é abandonar sua vida sem sentido, pecaminosa e sem esperança para seguir Jesus

      3. Sonhos Platinados (CARLINHOS VEIGA), em que um sertanejo conta suas tristes memórias, desde que abandonou o sertão para tentar a sorte na cidade grande e descobriu pessoalmente que não era o que sonhava.

   Esse tipo de canção tem muito poder em termos de edificação e evangelismo, pois podem muito bem se encaixar na vida de um ouvinte levando-o à reflexão, ao alento e à conversão. Por isso, quem faz esse tipo de canção, deve saber que vai fazer um bem espiritual a muitas pessoas.

   II – Canções que são estórias ou anedotas cantadas

   Nesse caso, pelo absurdo da história, cheia de humorismo, a gente logo percebe que são frutos da criatividade e talento do compositor e que, portanto, não são casos reais, mas são, em linguagem sertaneja, “causos”. Pode até acontecer de o compositor se basear em um acontecimento real, transformando-o em seguida em ficção, mais a maioria dessas canções foi inventada. Têm também o objetivo de ensinar uma lição cristã. Foi o cantor ELIZEU GOMES, quem mais se destacou com esse tipo de música, chegando a lançar 3 CDs (LOUVOR RURAL I, II e III), a nível nacional. Alguns exemplos de suas canções:

      1. "Pistoleiro que gostava dos irmãos" (LOUVOR RURAL I), onde conta a história de um pistoleiro que obriga um jovem zombador da igreja a se converter na marra.

      2. "Eu passo reiva" (LOUVOR RURAL I), que narra a história de um irmão que fica chateado com um suposto irmão crítico, cheio de malícia e que fica constantemente julgando os outros.

      3. "O Zé Roceiro" (LOUVOR RURAL III), conta a estória do Zé Roceiro que ao ir para a cidade é recusado como membro de uma igreja, pois o pastor achava que sua presença estragaria a membresia chique.

   A exemplo do rock, há ainda preconceito com relação a esse tipo de música na igreja, especialmente por parte daqueles irmãos que acham que o humorismo na igreja é pecado ou incoveniente. Infelizmente não tem aumentado os casos de artistas que fazem esse tipo de música atualmente. E por isso afirmo, com convicção, que estamos perdendo a oportunidade de fazer uma música alegre, reflexiva e edificativa. Também estamos perdendo a oportunidade de usar a música evangélica para  diminuir essa imagem demasiadamente séria, carrancuda e até triste que tem os evangélicos diante da sociedade brasileira.

   III – Canções que são estórias e não histórias

   Nessa situação as canções são cheias de invenções, mas o autor, intérprete ou fã quer que a gente acredite que aconteceram ou acontecem tais narrações. Às vezes narra uma coisa que ele vê ou viu, uma visão sua, uma coisa que ele acredita e acha que devemos acreditar nela, como ele acredita. Nesse aspecto se encaixam aquelas canções que falam da ação de anjos pra todo canto, milagres “à torta e à direita”, visões de como é o céu, ressurreição de mortos, etc. Não estou me referindo aqui aos milagres descritos na Bíblia, que é sempre bom contá-los através da música, para demonstrar o poder de Deus. Estou me referindo àqueles milagres supostamente acontecidos hoje em dia. Com isso não quero dizer que não acredito em milagres hoje em dia, pois eu reconheço que nada é impossível ao nosso poderoso Deus. Agora muita gente narra milagres que inspiram mentira, por isso precisamos ficar atentos e não acreditar cegamente.

   Esse tipo de canção é muito perigoso, porque em muitos casos não passa de uma mentira cantada. Mesmo que o compositor ou intérprete tenha presenciado ou beneficiado por um acontecimento extraordinário, não deveria colocar isso em música, sob pena de ser mal interpretado. Os seus ouvintes poderão não acreditar e até julgar a fé do artista. Em suma, o artista não pode cantar tudo que quer e como quer, mas deve ter critérios na hora de gravar uma música, afinal o artista não faz música para si, porém para os outros ouvirem. Se a música está a serviço do Reino de Deus, por conseguinte as letras devem se encaixar nos limites impostos pela Bíblia. Por uma questão ética não poderei citar exemplos, mas tenho certeza que o/a irmão/ã conhece pelo menos uma música desse tipo.

   A ficção na música evangélica é algo aceitável e até necessário para expressar nossa criatividade, maturidade e bom humor. Com certeza é um bom recurso para ensinar as verdades e valores do Evangelho. Todavia é preciso sempre manter a cautela, a sabedoria e a base bíblica.

 

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