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Autor: SALVADOR DE SOUSA
Edição:
3ª edição – 05/11/08
: 15

Crítica na música evangélica

    A sociedade brasileira é cheia de problemas de ordem moral, ética e religiosa. A crítica é uma reação contrária a esses problemas, não somente sua existência como a sua conservação, tanto na sociedade quanto na igreja. A crítica visa denunciar ou evidenciar, parcial ou totalmente, alguns desses problemas em busca de soluções. A crítica é um ataque ao problema e não às pessoas. Na verdade, a crítica é o primeiro passo para a solução de um problema. Se ninguém fala nada, é porque não vê, não tem coragem ou não se importa com os que sofrem com tais problemas.


   I – OS OBJETIVOS DA CRÍTICA

   Para ser mais específico, cito seus principais objetivos:

   1º. “Abrir os olhos” das pessoas: isso significa dizer que existe um problema e as suas conseqüências são negativas. Muitas vezes as pessoas não conseguem ver, ou se acostumam com os problemas, ou se acomodam, chegando ao ponto de considerá-los normais. A crítica é para tornar evidente a existência do problema. Veja o caso de Davi depois de pecar com Bate-Seba (2 Sm 12:1-14). Ele não estava conseguindo ver o problema. Foi preciso que o profeta Natã lhe abrisse os olhos.

   2º. Motivar as pessoas: os problemas de uma sociedade não se resolvem individualmente, mas coletivamente. Quanto mais pessoas se importarem com os problemas, mais possibilidades de surgirem as soluções. Por isso, quem faz crítica deve trabalhar suas letras no sentido de convencer o máximo de pessoas possíveis, sejam pessoas simples ou autoridades.

   3º. Buscar ou propor soluções: todo problema requere solução, por isso a gente espera que isso aconteça de imediato ou a longo prazo. Nem sempre quem faz crítica vê de imediato uma solução. Mesmo assim ela deve ser feita, na esperança de motivar alguém a encontrá-la.

   II – CRÍTICA E MÚSICA

   A música pode ser um excelente meio para se fazer crítica. Muitos artistas e bandas seculares têm feito isso, especialmente as bandas de rock e grupos de RAP. Por outro lado os evangélicos têm sido bastantes tímidos em relação a essa alternativa, até porque muitos vêem a crítica como uma coisa negativa, que não contribui para a solução. Outros acham que não temos que nos preocupar com a vida aqui, mas sim com a vindoura. E outros acham até que é pecado. Como conseqüência disso, a  participação dos evangélicos na solução dos problemas sociais de nosso País se torna tão modesta. 

   Não podemos ver a crítica dentro da música evangélica como algo biblicamente errado, pois exigir ou lutar por uma sociedade mais justa, mais santa, mais honesta, deveria ser uma bandeira mais nossa do que das pessoas do mundo. Até porque os problemas de uma sociedade nos atingem, também. Quantos evangélicos são vítimas da violência? Quantos evangélicos passam necessidades? Quantos evangélicos não têm casa e emprego? Enquanto estivermos morando neste mundo, devemos fazer tudo que for honesto, correto e verdadeiro para melhorar a situação de nosso povo. Quem sabe as pessoas vendo nossa preocupação e luta não se interessem mais por Deus e pelo Evangelho que pregamos?! O Evangelho de Jesus Cristo é uma missão integral e não parcial, por isso o Evangelho em primeiro lugar deve impactar o coração do homem e depois o da sociedade onde vive. Em outras palavras o cristão é um cidadão do céu, mas é também um cidadão do seu país.

   Para analisarmos melhor o tema, podemos dividir a crítica em social e religiosa:

    III – CRÍTICA SOCIAL

   Vamos considerar crítica social aqueles protestos feitos contra diversos problemas de uma sociedade, tais como corrupção, prostituição, pedofilia, ilegalidade, pirataria, racismo, ganância, desonestidade, rebeliões, enchentes, secas, destruição da natureza, matança de índios, analfabetismo, desemprego, miséria, AIDS, injustiça, desrespeito aos idosos, criminalidade, materialismo, uso e tráfico de drogas, hipocrisia, guerras, falsidade, vanglória, etc.

   Fazer crítica social na música evangélica não é uma tarefa fácil, por isso é necessária uma boa preparação e certos cuidados, senão ao invés de contribuir podemos atrapalhar. Para ajudar, gostaria de dar as seguintes sugestões:

   1. Adquirir conhecimento: significa se informar sobre o tema, sua origem, conseqüências, etc. Livros, revistas, artigos na Internet, etc, poderão nos dar uma base. Por exemplo, se você quer fazer uma canção para criticar as brigas entre protestantes e católicos na Irlanda, ou entre Israelenses e Palestinos é necessário adquirir um pouco de conhecimento, senão a sua composição em nada contribuirá.

   2. Evite aumentar a polêmica: se o compositor não tomar cuidado, poderá é adquirir ódio. Veja o exemplo do aborto, que é legalizado nos Estados Unidos, país de maioria protestante. No Brasil não praticar o aborto em hipótese alguma é uma bandeira da Igreja Católica, entretanto milhões de brasileiras fazem abortos todos os anos e a maioria delas são fiéis católicas. A opinião pública tem defendido o aborto em casos de estupro ou quando traz risco de vida à mãe. Mas o interessante é que as igrejas evangélicas não têm uma posição própria, clara e pública. Não dizem, também,  se estão com o Vaticano ou com a opinião pública. E para complicar a vida de muita gente, temos que admitir que a Bíblia não trata especificamente sobre o aborto. E aí eu pergunto: como fazer uma canção evangélica sem aumentar a polêmica?

   3. Faça crítica social com moderação: isso implica afirmar que não é aconselhável fazer todo um CD com crítica social. Músicas com essa temática devem ser algumas, não a maioria das faixas.

   4. Evite o sarcasmo, pois as pessoas podem ficar chateadas e, também, não tem nada a ver com o caráter do cristão.

   O exemplo tem grande poder, por isso recomendo analisar as letras de canções que tratam dessa temática. Gostaria de sugerir algumas canções, que ao meu ver, foram feitas com maestria.

CANÇÕES
CD
CANTOR/BANDA
TEMA (S)
Terra: irmã, mãe amiga Terra CARLINHOS VEIGA Destruição da natureza
Sonhos platinados Menino CARLINHOS VEIGA vida do retirante
No meu País 10 ANOS CATEDRAL injustiças sociais
Pelas ruas da cidade 10 anos e Está consumado CATEDRAL injustiças sociais
Negro chegou Na terra brasilis CIA DE JESUS racismo
Protesto Além das Estrelas ENOCK LOU palavrões
Liberdade vigiada O melhor CONTATO VITAL guerras
Pra cima, Brasil Simplesmente João JOÃO ALEXANDRE injustiças sociais
Meninos de rua Na contramão do Sistema FRUTO SAGRADO meninos de rua
Forrock O Segredo FRUTO SAGRADO corrupção
Pra acordar Fruto Sagrado Volume 1 FRUTO SAGRADO morte de índios e pessoas do campo
Sistema Aos Pensadores REMANESCENTES sistema mundano
Diga não Diga Não RAÍZES drogas



   IV – CRÍTICA RELIGIOSA

   Esse é um terreno bastante minado. Enquanto na crítica social há uma certa tolerância, isso não ocorre da mesma forma aqui. Criticar as religiões ou as igrejas evangélicas, denunciando seus problemas e doutrinas humanas é algo realmente perigoso, o que requere sabedoria ao compositor.

   Mesmo com os perigos é necessário fazer esse tipo de crítica, pois em todas as religiões há hipocrisia, guerras por poder e dinheiro, escândalos, brigas entre os lideres, falsidade, descaso social, orgulho, egoísmo, ódio, imoralidade sexual, radicalismos, idolatria, etc. Devido à natureza humana nem mesmo as igrejas evangélicas estão isentas a isso.

   Alguns cuidados que precisamos ter para fazer canções com crítica religiosa:

   1. Evite o sarcasmo. O humorismo pode ser utilizado, como fez com maestria o cantor ELIZEU GOMES diversas vezes, mas deve-se evitar o sarcasmo, pois é um tipo de atitude que costuma irritar as pessoas.

   2. Procure tratar de problemas que sejam mais comuns entre as igrejas, como por exemplo: vergonha de ser crente, exageros na questão de usos e costumes, uso de fetiches, amuletos ou talismãs nas reuniões da congregação, falta de ação social, mau emprego das ofertas e dízimos, pastores mal intencionados, venda de votos dos irmãos para políticos, fanatismo, idolatria, divisões, etc.

   3. Pode-se criticar filosofias, interpretações e doutrinas humanas, todavia é aconselhável não mencionar o nome da igreja ou religião que as segue e ensina.

   Cito como exemplos, algumas músicas, em diversos estilos, que foram bem feitas:

CANÇÕES
CD
CANTOR/BANDA
TEMAS
Enquanto se discute Menino CARLINHOS VEIGA brigas na igreja
Pedro Zé, um nordestino Catedral III CATEDRAL descaso com pobres
Eu passo “reiva” Louvor Rural 1 ELIZEU GOMES Julgar os outros
Lobo mau Na Contramão do Sistema FRUTO SAGRADO Pastores corruptos
O Segredo O Segredo FRUTO SAGRADO queda na fé
O Novo Mandamento O Segredo                FRUTO SAGRADO       desamor entre os irmãos
O Evangelho Conteúdo LOGOS teologia da prosperidade
Só pela Graça Louvor Rural II ELIZEU GOMES maus cristãos
O Zé Roceiro Louvor Rural III ELIZEU GOMES preconceito


   V – CONCLUSÃO

   A crítica social e religiosa são temas poucos explorados na música evangélica por diversas razões, tais como medo, descaso, falta de conhecimento, falta de compaixão e misericórdia e, até mesmo falta de talento para se fazer a coisa. Mas é algo que pode ser aprendido, não somente através da busca do conhecimento adequado, bem como através da observação atenta de quem faz isso com talento.

   Chama-me a atenção o fato de que há no Brasil inúmeros problemas sociais e quase não se ouve canções evangélicas falando disso, seja denunciando ou combatendo, seja propondo soluções à luz da Bíblia. Há também várias guerras e calamidades acontecendo fora do Brasil e ninguém em nosso meio compõe nada, seja em protesto ou solidariedade. Chama-me a atenção, também, no meio das igrejas evangélicas brasileiras diversos ensinos e práticas longe da Bíblia, quase sem nenhuma canção  denunciando e protestando, levando os irmãos à reflexão e retorno somente aos ensinos e práticas bíblicas. Por fim chama-me a atenção o fato de haver pessoas matando em nome da religião, praticando a idolatria, disseminando teorias anti-bíblicas, criando leis anti-cristãs e quase ninguém questiona isso em uma canção.

   Fala-se hoje de música profética, entretanto para mim uma canção só é profética se ela assume o papel de profeta, ou seja, se ela falar a vontade de Deus, que inclui denunciar os pecados do povo e chamá-lo para a mudança. E esse tipo de música está faltando no meio evangélico com mais intensidade. Espero que esse texto motive e inspire os compositores e músicos a salgarem a sociedade brasileira com suas críticas coerentes, freqüentes, oportunas, relevantes e construtivas.

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