Desde o início deste novo século tem acontecido notoriamente um fato interessante na música secular brasileira. Milhões de pessoas estão consumindo relançamentos e regravações. Isso acabou até virando um fenômeno de vendas. Todas as gravadoras arranjaram um jeito de abocanhar um bom dinheiro com esse saudosismo do povo brasileiro. Discos de artistas e grupos que fizeram sucesso desde o século XX tem sido relançados em CDs, em coletâneas ou não.
     Muitos artistas que fazem sucesso hoje em dia, estão regravando seus antigos sucessos, ao vivo ou acústico. Além disso têm muita gente fazendo sucesso com algum sucesso do passado, por exemplo com uma canção regravada da jovem guarda ou dos anos 70. Os próprios artistas da jovem guarda, voltaram à mídia, seja relançando seus discos em CDs ou regravando seus sucessos dos anos 60. E o que tem de coletâneas nas lojas e supermercados é muito grande. Cito algumas por exemplo: MILLENNIUM, RAÍZES NORDESTINAS, RAÍZES SERTANEJAS, O ESSENCIAL DE, PERFIL, 20 SUPER-SUCESSOS, MEUS MOMENTOS, GRANDES SUCESSOS, RECORDANDO, DOIS EM UM, DOSE DUPLA, O MELHOR DE, MINHA HISTÓRIA, OS MAIORES SUCESSOS DE, etc. O interessante disso é que existem casos de artistas, ainda em atividade, que vendem mais seus discos antigos do que os mais recentes, que fazem mais sucesso com suas composições antigas do que com as novas. 
     Por que tem acontecido esse fenômeno? Poderia dizer que é porque as pessoas não tem mais os LPs ou toca-discos. Poderia dizer que as pessoas estão substituindo seus LPs e CDs arranhados ou quebrados. Poderia dizer que muitos acham o som do CD melhor do que o LP. Poderia dizer que o CD ocupa pouco espaço na estante. Poderia dizer que esses CDs estão mais baratos. Poderia dizer que o povo quer relembrar, através dessas canções, momentos marcantes de sua vida no passado, o que é um forte motivo. Acredito que todas essas justificativas são possíveis aqui e ali, entretanto eu acredito que o maior motivo é que as pessoas estão insatisfeitas com a música atual. Ela não está suprindo as necessidades emocionais das pessoas, especialmente daquelas que conheceram outras fases da música brasileira.
     Em outras palavras, milhões de brasileiros estão dizendo que não estão gostando das músicas de hoje. Não estão gostando dessas letras vazias, sem sentido, sem poesia, sem contexto, sem dizer coisa com coisa, mal compostas, repetitivas, etc. Para piorar os programas de televisão fecharam o cast em torno de uns 20 cantores e bandas. E somente esses ficam circulando de um programa para outro, às vezes cantando a mesma canção. Milhões de brasileiros estão cansados e enjoados disso tudo. Não estão vendo evolução, mas decadência. Por isso estão buscando a boa música no passado. E lá tem muitas pérolas, com certeza. Em suma, para muita gente na música secular, a velha está melhor.
     E quanto à música evangélica atual? Está melhor do que a das décadas passadas? De uma forma geral, eu diria que não. Principalmente de 2000 para cá, tem surgido trabalhos que estão longe da qualidade que existia por exemplo, nos discos dos anos 80. Em termos de brasilidade, poesia, ousadia, riqueza vocabular, riqueza de conteúdo, variedade de temas, base bíblica forte, etc, temos muitos trabalhos a desejar. Não estou afirmando que no passado não havia trabalhos “fracos”, mas a maioria era de boa qualidade.
     Antigamente a gente tinha uma ansiedade por um novo LP ou CD. Agora a gente fica até com preguiça de ir a uma loja evangélica. E por que isso está acontecendo? Porque muitos compositores e músicos atuais não observam os bons exemplos do passado, ou seja, não valorizam, não estudam, não imitam suas composições, não regravam, não se interessam pelos antecessores. Não buscam aperfeiçoar aspectos positivos já experimentados, pelo contrário preferem muitas vezes começar do zero a aproveitar o bom alicerce feito com orações, jejuns, dedicação e talento dos compositores, músicos e cantores do passado.
     Parece que os compositores e músicos atuais sabem pouco da gramática, da poesia, da cultura brasileira e até da própria Palavra de Deus. Parece que muitos compositores estão cansados, sem tempo e paciência para compor. Parece que o Evangelho lhe foi ensinado ou entendido superficialmente. Se os compositores estudassem mais os Salmos, que é o hinário bíblico, já teriam muitos subsídios para compor com mais qualidade, variedade e espiritualidade. E se amassem mais o seu País e a sua cultura com certeza produziriam novos salmos que se perpetuariam pelas gerações seguintes.
    Era inevitável que a música evangélica tinha que expandir-se em variedade de estilos, ritmos e aumentar a quantidade de cantores e grupos, entretanto deveria manter os alicerces das décadas anteriores, para que a nossa música continuasse rica em todos os sentidos e nos trilhos de um processo de evolução. No momento uma grande parte da música evangélica tem um perfil mais estrangeiro do que brasileiro. E isso é ruim para a evangelização através da música. Enquanto a música secular brasileira se destaca pela variedade de ritmos nacionais, a igreja continua trazendo mais ritmos e versões norte-americanas, canadenses e australianas. Tem até premiação a nível nacional para eleger a melhor versão do ano. Enquanto o povo tupiniquim quer ser mais brasileiro, parece que a igreja evangélica quer ser mais gringa.
     Enquanto a valorização e resgate da música secular do passado anda a todo vapor no meio secular, ganhando espaços em todos os veículos de mídia, além das prateleiras das lojas, vemos que esse fenômeno não ocorre com a mesma intensidade no meio evangélico. Isso porque a onda dos relançamentos e regravações ainda não chegou com tanta força no meio evangélico. É bem verdade que há dezenas de cantores e grupos dos anos 90 para trás que têm relançado seus discos. É bem verdade, também, que algumas gravadoras evangélicas ainda relançam discos de cantores das antigas, mas ainda está longe do ideal.
   É preciso que os donos dos direitos fonográficos de milhares de discos e CDs, sejam os cantores, grupos, seus familiares ou gravadoras, se importem e se dediquem a preservar, divulgar e disponibilizar para a presente geração e as futuras, a música evangélica antiga. Fazendo isso, com certeza irão ganhar um dinheirinho, também. É preciso que a mídia evangélica se importe em divulgá-la e resgatá-la do esquecimento. É preciso que mais pesquisadores evangélicos pesquisem a música evangélica, com sua história e personagens, e que escrevam mais sobre ela, sejam artigos ou livros. Em suma, é preciso que todos nós evangélicos trabalhemos no sentido de deixar um espaço mais decente para a velha.