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Autor: Salvador de Sousa
Edição:
3ª edição - 04/11/08
: 18

O Movimento Gospel

 

     O Movimento Gospel foi um acontecimento extraordinário e revolucionário ocorrido na música evangélica brasileira, no período compreendido entre 1989 a 1999.  Foi uma época de profundas e variadas mudanças na música cristã, cujas conseqüências permanecem até hoje.

 

     Foi chamado de movimento por ser um acontecimento extraordinário, de evolução e de tendência. Quanto à  palavra gospel, ela já era utilizada desde o início dos anos 80 pelo cantor country brasileiro MARTIN LUTERO, entretanto a partir de 1989 foi incorporada  para dar nome a esse fenômeno. Ao que tudo indica o Movimento Gospel começou na Igreja Renascer em São Paulo, tendo a visão e iniciativa do empresário e pastor Estevan Hernandes. Foi ele  e o publicitário Antônio Carlos Abbud  que criaram a gravadora Gospel Records, em 1990, para concretizar esse sonho de colocar a música evangélica em posição de destaque na indústria fonográfica brasileira. Outras gravadoras, como a Line Records e a MK Publicitá, que também surgiram nessa época, bem como  a antiga Bom Pastor colaboraram com a proposta musical do Movimento, lançando LPs e CDs de muitos cantores e grupos.

    

     Provavelmente os dois referidos acima souberam do que estava acontecendo com a música cristã nos Estados Unidos nos anos 80, que estava sofrendo profundas transformações, especialmente com o sucesso de cantores e grupos cristãos de música pop e rock, os quais agitaram a sociedade norte-americana, como por exemplo as bandas Petra e Stryper. Obviamente os norte-americanos não adotaram o nome Movimento Gospel.

 

     Como cheguei a esse período de 1989 a 1999? Em primeiro lugar eu vivi de perto esse fenômeno desde 1989, aqui em Brasília e em outras cidades brasileiras como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, etc, indo a shows, lendo artigos, visitando lojas evangélicas, assistindo programas de rádio e televisão e, principalmente, comprando discos. Analisando uma parte da extensa discografia produzida nesse período, vendo o que há de comum dentro da música evangélica produzida, dá para a gente demarcar esse período com convicção.

 

     Movimentos musicais duram geralmente uns 10 anos. Veja por exemplo o movimento da Jovem Guarda, no meio secular. Ele começou em 1959 e foi até 1969. Teve seu auge no primeiro qüinqüênio, entretanto, foi começando a esfriar a partir de 1966. O mesmo se deu com o Movimento Gospel ele iniciou ali em 1989, especialmente com as bandas de rock e de música pop, teve seu auge entre 1990 e 1994, e a partir de 1995 começou seu  esfriamento vindo a acabar em 1999, quando muitos cantores e grupos foram desaparecendo do mercado e da mídia e os que ficaram foram mudando um pouco seu estilo, além de alguns saírem de seus grupos para a carreira-solo.

 

     As muitas mudanças ocorridas na música evangélica brasileira durante o Movimento Gospel podem ser definidas através da palavra-chave crescimento. Obviamente se tratou de um crescimento extraordinário, fora do comum. Neste período há um crescimento da quantidade de cantores, cantoras, bandas, duplas, quartetos e conjuntos chegando à casa das centenas de nomes. Há crescimento da produção de discos pelos evangélicos tanto por gravadoras, quanto por produções independentes. Há crescimento da quantidade de gravadoras e lojas evangélicas. Há crescimento da exploração de ritmos antes marginalizados pelos evangélicos, tais como o rock, reggae, rap, funk, samba, pagode, etc. Há crescimento do número de festivais de música evangélicas em busca de novos talentos. Há crescimento da presença musical dos evangélicos na mídia secular. Há crescimento do número de cantores e grupos que passaram a viver da música evangélica. Há crescimento da quantidade de discos que ultrapassaram a marca das 100.000 cópias. Infelizmente houve, também o crescimento de aspectos negativos tais como uma preocupação maior com as vendas e com o lucro, presença do corporativismo nas TVs e rádios evangélicas, estrelismo de cantores e grupos, brigas por questão de direitos autorais, ofuscamento dos cantores e grupos anteriores ao período, etc.

 

     Alguns cantores, músicos e inúmeros evangélicos que viveram ou não essa fase de perto, por diversas razões que desconheço, tomaram uma postura crítica e antagônica ao Movimento Gospel, especialmente em relação à Igreja Renascer, na pessoa do Estevan Hernandez, bem como em relação à gravadora Gospel Records vinculado à essa igreja. Essa ojeriza, também, ocorreu em relação á gravadora MK Publicitá, que também havia abraçado a causa do Movimento Gospel. E são muitos os evangélicos que ainda têm forte oposição ao Movimento alegando que esse movimento mais prejudicou  do que ajudou a música evangélica e a carreira musical de muita gente. Alguns cantores ficam até hoje incomodados ao chamarem de gospel sua música, por pensarem que sua obra está sendo associada ao que consideram de pior na música evangélica.

 

     Bom, para mim que estive ali acompanhando desde 1989, não concordo e nem compactuo com essa visão.  Por acompanhar esse período como consumidor, comprando discos, indo a shows, ouvindo programas de rádio  e lendo o que tinha acesso escrito na época, minha visão é mais tolerante. Isso não quer dizer que ache normal palavras e práticas pecaminosas ocorridas dentro do Movimento, assim como não acho correto difamação, ódio, vingança e falta de perdão. Entendo que tudo que tem seres humanos, haverá no meio problemas e pecados. Exemplo disso pode ser percebido em igrejas que crescem: elas vão ficando cheias de membros e obviamente com mais gente, mais problemas surgirão ou se tornarão mais evidentes e freqüentes.  É claro que a gente nunca deve concordar com o pecado que as pessoas cometem, ma será que nas décadas anteriores não havia gente que procedia assim no meio musical?! Será que na atual década não teria gente que procede assim, também?!

 

     O Movimento Gospel foi também uma bela fase da  música evangélica brasileira. Impactou positivamente a música e as igrejas, pois foi um movimento que levantou a bandeira do evangelismo através da música. Por isso houve maior quantidade de canções contextualizadas para os problemas da vida, propondo solução em Jesus. Foi por isso se buscou uma linguagem mais acessível ao entendimento dos pecadores. Por isso os cantores e grupos evangélicos foram mais para as ruas, praças, esquinas, estádios e casas de shows seculares. Por isso se buscou uma melhor qualidade da música evangélica para que ela não fosse, por exemplo, vista com inferioridade diante da música secular. O resultado disso é que surgiram cantores e grupos evangélicos com qualidade igual e superior a muitos do meio secular. Outro fator positivo a se considerar é que muitas almas, que foram aos shows gospel, demonstraram simpatia e se interessaram não somente pela música, mas também pela igreja evangélica. Outro aspecto a se considerar é que o Movimento Gospel acabou com a timidez, a repressão que havia em muitos músicos, desabrochando-os para tocar música evangélica nos mais diversos estilos e linguagens. A música evangélica não ficou mais norte-americana com o Movimento, pelo contrário, surgiu muita música com cara brasileira e o foi período em que mais se produziu música em ritmos nacionais.

 

     Pense em um cantor ou grupo evangélico que você mais gosta?........ Já pensou?...... Pois é, ele/a pode ter surgido dentro do Movimento Gospel, ou sua carreira tomou um grande salto dentro desse período, além da possibilidade de ter sofrido bastante influência de cantores e grupos desse período. Isso porque o Movimento Gospel foi bom para a maioria dos que vivenciavam a música evangélica. Existem exceções em tudo, porém os cantores e grupos que não se firmaram durante esse período, não era para ser mesmo. Em todas as épocas isso acontece, e as pessoas tomam outros rumos na vida. Nem sempre nossos planos vingam, mesmo consagrados a Deus. É que o Pai tem outros planos para as pessoas, pois creio que Ele agindo em algo que deseja, ninguém o impedirá.

 

     O Movimento Gospel trouxe, também, mais uma opção para designar nossa música, ou seja a expressão “música gospel”. É claro que muita gente não gosta desse termo, inclusive cantores e grupos, especialmente críticos ao Movimento Gospel, porém esse termo tem suas vantagens. Além de ser  uma expressão mais evangelística, é a que tem sido mais aceita, tanto na mídia evangélica quanto na mídia secular. É bem verdade que cantores e grupos, surgidos ou que cresceram dentro desse período estão em plena atividade hoje, e  até mesmo mantendo os ideais do Movimento Gospel, todavia isso não significa que estão ainda vivenciando um movimento. O Movimento Gospel já passou. Ele acabou, mas deixou sua marca positiva, relevante e importante na música evangélica brasileira.

 

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