Há muita gente no meio evangélico aversa a rótulos, especialmente às expressões "música evangélica" e "música gospel". Será que seria possível nossa música não ter algum rótulo que a identificasse claramente?!
O rótulo é algo necessário, para não dizer obrigatório em nossa sociedade. Segundo o Dicionário Aurélio, "rótulo é um pequeno impresso que se cola em embalagens e recipientes para indicar-lhe o conteúdo." Já o dicionário Michaelis amplia o conceito afirmando que "é um pequeno impresso, de tamanho variável, geralmente em cores, quase sempre ornamentado com filetes, gravuras, etc., e que serve para colar em frascos, garrafas, latas, caixas, etc., para indicar o seu conteúdo." Existem outros significados, mas esse é o principal. Em nossa sociedade ninguém compra produtos sem saber do que se trata, o que tem lá dentro. Quem é que vai a uma farmácia e aceita levar o remédio num frasco liso, sem nada que o identifique? Quem é que vai ao supermercado e compra um produto sem ter nada escrito nele, que revele o que é, para que ele serve?
Em um CD evangélico deveríamos considerar rótulo apenas o encarte. Entretanto tem muita gente, especialmente cantores/as e bandas, que considera as expressões "música gospel" e "música evangélica" como rótulos. Isso quer dizer que quando você se diz, por exemplo, cantor/a ou banda gospel/evangélica você está revelando sua origem religiosa que é cristã evangélica, protestante, crente, bem como o propósito de sua música. Na opinião desses irmãos isso prejudica o evangelismo e fecha portas diante do mercado e mídia seculares, por isso são vistos como rótulos indesejáveis.
É bem verdade que a maioria que se incomodam com esses rótulos, têm uma aversão maior ao rótulo "gospel", pelas razões já expostas no texto de minha autoria "O QUE É MÚSICA GOSPEL". Por outro lado há muita gente que gosta e utiliza as expressões "música gospel, artista gospel, cantor/a gospel, banda/grupo gospel. Sendo assim, acredito que o melhor caminho é que cada um seja livre para usar seu rótulo preferido.
Muitos ao evitam rótulos como evangélico, ou gospel, para obterem uma melhor aceitação nos veículos da mídia secular. Mas é preciso estar consciente que o/a artista evangélico/a tem pouco tempo e espaço na mídia secular. O que ele falar sobre Jesus vai se resumir a frases de agradecimento a Ele e a Deus, e só. Isso todo artista faz, independente de ser cristão ou não. Qual cantor/a ou banda gospel/evangélica você conhece que faz um evangelismo pararelo à sua carreira no meio musical? Que prega no camarim e no show? Não se drogar, não falar palavrões, não fazer fofocas, não criticar os outros publicamente, são coisas boas para se praticar, mas isso não é uma exclusividade nossa. Há muitos não-evangélicos que não praticam essas coisas, também. Por isso o melhor testemunho que um/a artista ou banda gospel/evangélica pode dar é falar de Cristo e do seu Evangelho através da música. Ela com certeza terá maior aceitação e penetração nos corações das pessoas. Também o artista evangélico/gospel deveria dar um bom testemunho da comunidade evangélica, demonstrando que nossa música tem qualidade e profissionalismo. Afinal as pessoas do mundo têm muito preconceito em relação à nossa música, muitas vezes com razão. Precisamos aproveitar as oportunidades para mudar isso. Temos que chegar a um ponto em que as pessoas do meio secular vão fazer questão de adquirir CDs gospel/evangélicos.
Acredito que muita gente começa cantando música evangélica/gospel com os olhos e coração voltados para o mercado secular. Outros porém, tomam essa decisão depois de um certo tempo no meio evangélico/gospel, às vezes seduzido pelo sucesso e fama estrondosos que a música secular pode dar, e não pela avidez de pregar o Evangelho. Para alguns, infelizmente, a música evangélica/gospel é uma ótima ponte para o meio secular, pois as igrejas são ótimas divulgadoras do trabalho de um artista ou banda evangélica, especialmente se ele/a desenvolve um estilo musical desejado e pouco explorado no meio evangélico.
Quando alguém decide ser um/a cantor/a ou banda evangélica/gospel, deve estar ciente de que seu público principal é o povo evangélico, ou seja ele tem um público principal pré-determinado. Talvez muitos não-evangélicos gostarão de CDs evangélicos/gospel. Talvez até irão a algum show evangélico/gospel ao vivo ou pela televisão, entretanto isso não acontecerá de uma forma predominante. O mesmo acontece com um artista secular: muitos evangélicos provavelmente comprarão o CD ou assistirão algum show dele, mas o seu público principal será sempre o público secular.
O artista ou banda evanélica/gospel só terá, com mais freqüência e facilidade, a divulgação de seu CD na mídia evangélica: TV, rádios, sites, revistas e jornais. Talvez alguém consiga ter espaço na mídia secular, mas geralmente são poucos os casos e a freqüência. No geral a mídia secular trata o artista evangélico/gospel da mesma forma que a mídia evangélica trata um artista secular, ou seja, com reservas e preconceitos. A gente se ilude em achar que chegando lá de mansinho, quietinho, sem nos identificar evangélico/gospel ninguém vai perceber quem somos. Só que a gente se esquece que pelo encarte e pelas letras das músicas a gente se revela. É claro que as pessoas da mídia secular não são ingênuas, fáceis de enganar. Sabem muito bem reconhecer quando um CD é evangélico/gospel.
O artista ou banda que deixa a carreira gospel para ingressar na música secular, é mal visto e condenado no meio evangélico. É uma espécie de divórcio entre o artista e o fã. Depois do rompimento, a convivência harmoniosa e pacífica costuma dá espaço ao ódio, vingança, frieza, etc. Não deveria chegar a esse ponto, mas infelizmente isso acontece. Agora não é pecado um artista evangélico cantar música secular. Aliás nós temos dezenas de músicos evangélicos que fazem sucesso cantando e tocando para o mundo. Existem inúmeras canções que não ferem as doutrinas cristãs. Estou dizendo isso para encorajar o artista ou banda evangélica, especialmente se anda pensando no mercado secular, a refletir bastante na hora de decidir em que carreira ingressar. Prefiro até que o/a cantor/a ou banda que está com dúvidas, vá tentar a sorte lá no mercado secular. Se não der certo por lá, é bem provável que será bem aceito posteriormente na música gospel. Voltará mais humilde e decidido. Agora começar no mercado gospel e depois ir para o secular, só vai gerar dor de cabeça.
Muitos artistas e bandas esperam muita coisa das pessoas do mundo esperam que elas sempre vão nos amar, esperam que elas sempre vão nos aceitar, esperam que elas sempre vão nos apoiar, esperam que elas sempre vão gostar de nossa música. Ora, quem pensa assim esqueceu das seguintes palavras de Jesus: "Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas" (Mt 10:16). Assim como os lobos em relação às ovelhas, as pessoas do mundo querem, muitas vezes, é se opor, dificultar e destruir o sucesso de nossa música. Daí a necessidade de sermos sábios para fazer com que nossa música esteja mais freqüentemente no meio secular.
Para concluir, defendo que precisamos ter orgulho de sermos gospel, independente e, principalmente, da opinião das pessoas do mundo. Não adianta querer conquistar o mundo tentando evitar rótulos. "Cantor/a evangélico/a cantando música secular" é um rótulo. "Banda formada por evangélicos cantando música secular" é também um rótulo. "Somos evangélicos, mas nossa música não é gospel" é também um rótulo. São rótulos grandes, porém não deixam de ser rótulos. Como evitar isso? Não tem como. Gospel pode ser um rótulo, mas é uma palavra bem mais curta e mais simpática do que essas expressões. Como já disse antes, o que precisamos fazer é convencer a sociedade brasileira de que fazemos música de boa qualidade e que, por isso, a mídia secular tem que nos receber e nos aceitar conscientes de quem somos. É bom lembrar que há rótulos até mesmo fora do meio evangélico e são aceitos normalmente pelas pessoas. Exemplos: música brasileira, música estrangeira, música internacional, música religiosa, música clássica, música instrumental, banda de rock, grupo de pagode, dupla sertaneja, cantor romântico, cantor brega, estrela do pop, o melhor de, as melhores de, os grandes sucessos de, grandes momentos de, as mais preferidas, perfil, etc. Em suma nós não precisamos tentar acabar com o rótulo gospel - como se isso fosse possível - mas trabalhar no sentido de que barreiras preconceituosas contra nossa música sejam eliminadas.